Dar tchau para crescer | Constelação Familiar – Constelação Familiar Sistêmica

Dar tchau para crescer | Constelação Familiar

Nó no cérebro

Eu gosto de Bert Hellinger porque numa pequena frase parece conter outras quinhentas.

No seu livro Ordens da Ajuda está escrito algo que é de dar nó no nosso cérebro.

A frase é a seguinte:

Sempre que alguém conta com o ajudante não pode mais crescer.

 

Ampliando

Para compreender essa frase mais amplamente e, logo de cara, revelar muito de sua essência basta, talvez, parafrasearmos assim:

”… sempre que alguém fica dependente do ajudante não pode mais crescer.”

Ou, talvez, assim:

“… sempre que alguém supõem que a solução esteja fora não pode mais crescer.”

 

No silêncio

O método da constelação familiar segundo Bert Hellinger não permite que o vínculo ajudante-ajudado aconteça e se alongue mais que o estritamente necessário.

Quem está mais familiarizado com o jeito de Hellinger atuar percebe que ele não permite que os clientes falem muito.

E, essa forma de agir, não é falta de educação, ausência de empatia, desleixo, preguiça, impaciência ou porque ele era alemão (e os germânicos tendem a serem mais recolhidos).

Essa maneira de intervir é própria da abordagem, só isso.

Mais silêncio e menos fala. 

Mais percepção e recolhimento, menos contação de histórias. 

Mais ausência do facilitador e menos elaboração falada na presença do profissional da ajuda.

 

– Atendimento Online com Bonecos

 

O tempo

Basicamente, o que Hellinger quer destacar é que, quando a pessoa se apoia ad eternum em quem quer que seja por mais tempo que o necessário, essa pessoa estanca seu crescimento pessoal.

E isso não é tão difícil assim de perceber, não é verdade?

Basta pensarmos nos filhos que sempre recorrem aos pais mesmo já na fase adulta e que não conseguem desmamar, como é dito no senso comum.

Se não ficam dependentes financeiramente, ficam adstritos emocionalmente.

Por vezes, por exemplo, até se casam. Mas o casamento não dura muito por impossibilidade de um deles estar verdadeiramente presente para sua família recém formada.

Ou seja, a pessoa não fica de pé por si mesma.

 

Geração Canguru

Em nossos tempos atuais estamos constatando abundantemente esse fenômeno social com o que os estudiosos chamam de ”geração canguru”.

Com a terapia ou a relação de ajuda a analogia é a mesma. 

Quem se apoia muito nessa solução tende a ficar estagnado.

Por isso a constelação familiar acontece em uma sessão e não em sessões recorrentes.

 

Bifurcando

Nesse ponto sei que muitos podem se perguntar: mas, Isabela, o que pensar dos psicanalistas e psicólogos? 

Será que, então, não é indicado buscar ajuda com esses profissionais?

O que é melhor? O que funciona mais?

Psicologia, Psicanálise ou Constelação Familiar? 

 – Mini-curso | 10x mais resultados com sua Constelação Familiar

 

Esclarecendo


Uma coisa precisa ficar bastante clara nesse ponto de nossa conversa: constelação familiar não é psicologia; constelação familiar não é psicanálise. 

Esse texto não está aqui para fazer apologia a um ou a outro método e sim dizer das diferenças sem imprimir qualquer juízo de valor.

Talvez, didaticamente, podemos dizer que estes são saberes afins, aproximados, primos. 

Mas, um não é o outro – e isso é importante de se perceber para qualquer decisão futura sobre percorrer este ou aquele caminho.

 

Assim como alguém pode preferir ir de Minas Gerais ao Acre de avião, de carro ou de bicicleta, alguém também pode escolher ir de psicanálise, de psicologia ou constelação familiar rumo ao seu destino esperado – que é o crescimento pessoal.

O avião é melhor por ser mais rápido? A bicicleta é pior por ser mais lenta?

Claro que não. Nem um nem outro.

Realmente vai depender do perfil e dos propósitos de cada qual. 

Conheço muitos bicicleteiros viajantes que se sentiriam menos felizes e livres dentro de um avião. 

O oposto também é uma realidade.

Cada um sabe de si. Tudo tem seu preço.

 

Psicanálise e Constelação Familiar

Se eu pudesse destacar o que essas duas formas de ajuda tem em comum seria o seguinte: o tchau.

O tchau é, enfim, o grande desfecho.

– Na psicanálise: pré-rendição

Contudo, na psicanálise o tchau se dá mais lentamente…

1) depois de um vínculo se formar e aprofundar (transferência via talking cure)

2) depois do  convite ao divã (início do tchau via talking cure)

3) depois de o cliente se cansar e compreender que a vida não se explica e não se captura; que a análise nunca será garantia de satisfação plena e que nela não estaremos abrigados, tampouco, dos absurdos e dos acasos mais loucos e dolorosos de nossa existência humana.

 

– Na constelação familiar: pós-rendição

Já na constelação familiar entre o oi e o tchau existe um lapso curtíssimo de tempo

1) no qual não há vinculação nem aprofundamento de vínculo (sem transferência, nem talking cure)

2) não há divã e, portanto, não há muitas falas

3) ao cliente é apresentado um padrão, um emaranhado, uma identificação que o prejudica e adoece, uma nova-postura que poderá, se quiser, sustentar sozinho e no pós-sessão frente aos obstáculos da vida e de suas demandas.

4) ou seja, como diz meu professor Décio (Idesv), o cliente precisa já ter desistido de racionalizações e elaborações. Eu diria que é um momento ”bandeira branca, eu me rendo”.

 

Explicando Freud

Você já deve ter ouvido falar sobre o talking cure e a transferência, certo?

O famoso ”talking cure” é um termo que foi cunhado por uma cliente de Freud e que quer dizer a cura pela fala. Essa é uma das bases da psicanálise. 

Outra base importante percebida e teorizada por Freud foi o fenômeno da Transferência (ou seja, permitir que o cliente traga para o setting analítico seu comportamento, sua raiva, sua frustração, suas conquistas, tudo).

Assim como o cliente se comporta na-sessão, assim também ele se comporta com os pais, com o chefe, com os amigos, com seu conjuge e, enfim, com vida.

Por isso, Freud entendia que era muito importante que a Transferência acontecesse para conhecer seu cliente e seus padrões.

Claro que não estou resumindo Freud em algumas poucas linhas, mas precisava lembrar dele para voltar à constelação familiar (que usa um método oposto).

 

Explicando Bert

Eu acabei de dizer, então, que nas bases da psicanálise há duas coisas muito importantes: talking cure e transferência.

Mencionei, também, que na constelação familiar não há um nem outro.

Trocando em miúdos, vamos dizer que Hellinger não permite que o carteiro entregue e leia a sua carta e que Freud, além de aceitar que o carteiro e sua missiva sejam lidas, consente ao carteiro quantas leituras quiser.

É como se o cliente fosse um carteiro querendo entregar (transferir) a correspondência e Bert atendesse a porta e dissesse ”não é aqui, mas vou lhe mostrar onde é”.

 Nego porque confio

Então, o facilitador, caso use o método da constelação familiar, nega o vínculo demorado e marsupial (nega a transferência) e faz isso alegando um bom motivo.

Hellinger não nega por negar e pra ser sacana com o cliente.

É um negar-que-ama e que confia.

Frente à tal negativa o cliente vai se deparar consigo mesmo e com sua família, inevitavelmente.

Bert confia ao cliente e à sua alma familiar esse processo.

O facilitador, então, sai de cena mais rapidamente para favorecer esse reencontro entre o cliente e si-mesmo e entre o cliente e sua-família. 

A negação da ajuda-demorada estaria, na constelação familiar, à serviço da reconexão.

 

Reendereçamento

Na psicanálise também se faz esse movimento de ir deixando o cliente consigo mesmo aos poucos. Contudo, é bem aos poucos mesmo. 

O convite ao divã, ficando de costas para o analista, é o princípio desse movimento de despedida.

O tchau na psicanálise, diferente do tchau na constelação, está mais sob o controle do cliente (pois é ele, o cliente, quem se decide por ir-se embora). 

Apesar de que, por vezes, isso possa ser acordado entre analista e analisando. 

Quando o cliente não ”desgruda” de forma alguma, o analista pode reencaminhá-lo, dando alta ao cliente daquela relação específica – que por algum motivo já estancou.

O tchau na constelação familiar parte do facilitador e, pela minha experiência, isso gera um grande desconforto no cliente (talvez por não se sentir acolhido e no controle).

Mas, isso é só um percepção falhada.

O acolhimento aconteceu e o ”controle” está com ele, contudo enquanto adulto que é e não como criança que já deixou de ser.

 

Cortando pela raiz ou podando galho a galho

Tanto o bom facilitador quanto o bom psicanalista sabem que não têm as chaves da solução absoluta para todo e qualquer sofrimento humano.

Mas, e o cliente, será que ele sabe?

Talvez aí, nesse exato ponto, Bert Hellinger seja bem cirúrgico e confiante em indicar mais rápida, radical e explicitamente ao cliente o que a psicanálise também vai indicar depois de um tempo, durante a poda: 

…a vida não se explica, não se apreende, vive-se, tal qual é! Somos seres de falta e a angústia faz parte. As grandes coisas da vida não estão sob nosso controle. Falar alivia, mas a vida continua sendo um gigante misterioso e um espinho na carne.

Constelar funciona para todos?

Vai depender do cliente.

Se ele estiver sincronizado com esse estilo mais pá-pum da constelação familiar, pode lhe ser muito útil.

Mas, realmente tem gente que não consegue voltar para casa tão rápido assim.

 

Qual o seu estilo?

E aí? Qual o seu estilo?

Espero que você tenha percebido que não há jeito certo ou jeito errado e que o presente artigo não se trata de desvalorizar ou valorizar uma ou outra abordagem.

Se você compreende que precisa falar diante do analista para ir elaborando; e se você precisa voltar recorrentes vezes à consulta clínica; e se você julga precisar desse vínculo para ser ajudado, então, talvez, a psicologia ou a psicanálise seja mesmo a melhor jornada a ser escolhida.

Mas, se você compreende o método da constelação familiar mais ao estilo ”silence cure”; e se você consegue suportar sozinho o pós-sessão; e se você consegue extrair daí suas elaborações a partir das novas posturas indicadas pelo campo no dia do seu atendimento, então a constelação familiar pode ser uma boa.

 

Uma ou outra

E também, talvez, não precisamos ser tão binários assim, certo?

A gente pode percorrer um trecho de avião e outro de bicicleta. 

Quem sabe também é uma outra opção?

Vamos experimentando.

Desejo-nos, no entanto, uma excelente jornada.

Até lá!

 


Isabela Couto | Psicanalista | Constelação Familiar | Atendimento Online com Bonecos e Cursos

 

Isabela Couto Machado, tem formação em Psicanálise, estudou Psicologia, é Cientista Religiosa e se considera uma divulgadora dos princípios sistêmicos, da filosofia de Bert Hellinger e da Constelação Familiar. É especialista no atendimento individual com bonecos. Atende de forma ONLINE (via skype) com bonecos digitais e também no formato presencial em Betim/MG.

12 comentários em “Dar tchau para crescer | Constelação Familiar”

Deixe um comentário