Tirania da felicidade  – Constelação Familiar Sistêmica

Tirania da felicidade 

Felicidade

Felicidade absoluta não é uma obrigação, viu gente?

Nem obrigação, nem possibilidade.

Nada é do jeito que a gente espera e na hora que a gente quer o tempo todo.

O ser humano é rachado, cindido por natureza.

Ou seja, a insatisfação faz parte e é muito inteligente acolhê-la.

 

Quer ser sábio?

Sabe aquela imagem do cobertor que quando puxado pra cobrir o pescoço, descobre os pés e vice-versa? Pois é. Assim somos. Sempre vai faltar algo. Sempre.

Então, quem quer ser feliz precisa entender que ficar triste faz parte da felicidade.

Olha que contraditório! É um paradoxo mesmo, mas há uma grande sabedoria em admitir que a vida e seus muitos movimentos é composta por felicidade e tristeza.

 

Cartas sobre a mesa

Pelo que parece a realidade não está nem aí para os nossos quereres.

É como se as opções já estivessem postas como cartas de baralho sobre a mesa. A vida fez isso. A vida distribuiu as cartas assim.

Ela, a vida, nos oferta muitas opções que precisam ser transformadas criativamente e ativamente em oportunidades.

Cabe a nós, talvez, compreender qual jogo está sendo jogado.

Poker, Buraco, Paciência, Truco, o quê?

Pois em cada jogo as cartas terão um valor.

Um ”As” no jogo de Truco tem uma valia, mas no jogo de Buraco terá outra completamente diversa.

A pergunta mais importante aqui seria ”qual é o jogo”? Quais as regras? Como jogar?

 

A natureza

A natureza não pergunta à formiga se ela quer chuva agora ou mais tarde. Nem o leão deixa escapar sua presa por dó.

A natureza não consulta os desejos individuais de cada espécie e de cada ser. Ela simplesmente e grandiosamente opera conforme sua ordem perfeita de funcionamento.

Aliás, cada ser e cada espécie já são a própria natureza, certo?

Eles pertencem. São, digamos, a partizinha da partizona.

Essa partizinha embutida no todo, precisa se submeter a algumas regrinhas (ou leis) – que chamamos de leis naturais.

Os bichos catalogado como irracionais fazem isso por instinto.

-Isso o que?

-A submissão.

 

Submeter-se é uma das regras do jogo

Nós-bichos-também, e que nos auto-catalogamos ”sapiens” já não estamos mais entregues totalmente às leis naturais e aos instintos.

Instinto quer dizer basicamente ”ir no fluxo”. E, se essa lógica possuir alguma coerência, nós-sapiens não conseguimos mais reconhecer esse fluir natural.

Digamos que este é exatamente o preço pago pela sapiencidade adquirida.

Nem ruim, nem bom. Apenas sapiens.

 

Fluir

Os animais tem sentimentos, sentem tristeza, ficam angustiados e agitados. Isso identificamos na experiência de convívio com eles.

Mas, por estarem mais próximos do ”fluir” não ficam aprisionados na reflexão, na objeção, na indagação, na filosofia, no pensamento.

Isso permite que eles sintam e apenas-sintam. 

Eles fluem. Eles passam e deixam passar. Eles seguem as regras do jogo.

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Refluxo

Já nós-sapiens barramos o fluxo com a racionalidade. Ruminamos. Mas, ruminamos não o capim e sim os pensamentos. Ruminamos muito.

Aprendemos a refletir, a repensar, a reter, a rever, a porquezar tudo: por quê? porque? por que?

Isso de porquezar demais nos garante muitas conquistas, é fato.

Mas nos custa a paz, a harmonia, a serenidade.

 

O preço

Eu não preciso pescar um peixe, nem caçar meu almoço.

Eu vou ao supermercado e lá tem de tudo em bandejas de isopor.

Não corro mais o risco de um rinoceronte correr atrás de mim quando saio para ir na padaria, por exemplo.

Com as ferramentas adequadas eu escrevo textos na internet e os distribuo para o mundo todo.

Eu me comunico em larga escala bem mais facilmente hoje em dia; ando de carro ou ônibus por longas distâncias; voo entre os continentes assim como os deuses da mitologia podiam fazer nas narrativas fantásticas de Homero; navego pelo globo sem precisar de barbatanas e guelras – não é maravilhoso?

 

Não tem almoço de graça

Enfim. Há muitas facilidades quando se vive em agrupamentos.

Contudo, não tem almoço de graça – conhece este ditado?

Pois é, tudo tem seu preço mesmo. São as regras do jogo do qual estamos falando.

A felicidade cobra taxas – juros com correção monetária.

O leão não me caça no caminho de volta pra casa. Já um ladrão pode me assaltar nesse percurso ou um atropelamento de carro pode me matar. Disso eu posso vir a sofrer. 

Minha vida ainda está em risco de outras e muitas formas, porém.

 

Do natural ao cultural

Ainda não sabemos se nossa ”escolha” mais pendente para o cultural do que para o natural foi vantajosa.

Por que usei aspas quando falei ”escolha”?

Porque ganharmos a sapiencidade não foi uma escolha intencional e consciente .

Esse salto foi uma das obra da natureza que em alguma momento: puff, fez-nos assim.

Considerando esse ponto de vista, a cultura (ou seja, aquilo que produzimos sapiencialmente) é produto da natureza.

A cultura seria natural e não sintética, em um nível muito profundo.

 

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O mundo que não criamos

Estamos aprendendo ainda a lidar com este mundo que não criamos.

Mundo esse, contudo, no qual estamos participando, interferindo, sintetizando (assim como a abelha constrói sua colmeia com as cartas do jogo que possui).

É tanto câncer, tanta depressão, tanto suicídio.

Entrementes, por outro lado, gosto também de saber dos desenvolvimentos técnicos e científicos de que o homem sapiente é capaz. Tudo isso importa muito.

 

E então?

Somos natureza, mas também cultura.

Somos indivíduo, mas também grupo.

Somos instinto, mas também razão.

Somos privado, mas também público.

Somos selva, mas também metrópole.

É dessa combinação explosiva que nascem nossos conflitos e nossas doenças. Nossa felicidade e tristeza. Nossa calma e nossa angústia.

Essas são as regras, essas são as cartas, esse é o jogo.

Como disse Satre em relação à essa nossa emancipação:

“Estamos condenados a ser livres.”

 

Jogando o jogo

Não sei se vocês me entenderam, mas felicidade absoluta não existe.

Se ficar (na selva) o bicho pega, se correr de lá o bicho-homem.

Desejo-nos arranjos 🙂


Isabela Couto | Psicanalista | Constelação Familiar com Treinamento pelo Idesv | Atendimento online e presencial com Bonecos | Cursos e Podcasts

2 comentários em “Tirania da felicidade ”

  1. A gratidão que sinto porque cada texto que você compartilha é tão grande e tenha certeza que leio com o mesmo cuidado e carinho com a qual você concebeu cada palavra. Eu permito que cada ideia rumine em mim um sentido, um entendimento, uma tristeza ou beleza. As vezes cai como uma pedra, por vezes me alivia como um bálsamo, mas verdade é que que suas reflexões também são minhas. Chuva de coraçõezinhos ❤️❤️❤️❤️❤️

    Naíme A Silva, sua pupila

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